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Mistérios de Pandora

Tateando o mundo e o sonho com mãos de criança.
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Eu sei que nem todos conseguem deixar comentários diretamente nos textos por conta da configuração do spaces... então, resolvi criar este livro de convidados. Se quiser me dizer algo relativo ao que achou desta literatura, é só escrever aqui. :)
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Oi prima, adorei tudo aqui, principalmente o de vovo.. te amo saudades... beijosBoca aberta
21 Mar.
clarissa Luzwrote:
Quando voltará a postar? Adoro ler vc. Um beijinho.
21 Nov.
04 July

Rutura

Pequim. Um gosto vazio de não estar você. Inevitável, implosivo, humano. Já sabíamos todos, mas para quê? Nosso perto-longe tão sincero e tão mesquinho. Agora só dói. Dor de pé que formiga. Muito tempo amputado, apontado para cima. Uma sensação de perda. Previsível. Insônia sem lágrima e uma angústia. Capital cosmopolita. Uma secura da língua que não há palavra: tudo-dito. A eloqüência reinventada. Uma página. Virada. Guinada de vida. Encruzilhada e cada um só. Lados-paralelas. Memória? Um braço que não mais acoberta na alta manhã. Devidamente despidos, em nossas roupas cotidianas, flanelas e algodões sem sexo. Saudade. Será mesmo? Parece mais falta de estar nu e protegido. O mundo agora é um leque aberto de perguntas sem eco. Captar a pergunta. Esquecer a não-resposta. Convencermo-nos. Missão solitária escolhida a dedo. Somos o mesmo. Isso é o que incomoda.

29 June

Para minha avó

Para minha avó.

                 

Por todos os tempos estiveste remota e suave sobre meu dorso, rezando palavras simples, de proteção e conforto. As marcas da tez impressas sobre minha palma miúda, à espera constante de quilômetros mais curtos entre o Rio e as Gerais. Os olhos folhosos e limpos, autóctones, no horizonte entre as pedras, contemplativa, feliz, humana. Todas as imposições aos que são sinceros com tudo aquilo que amam: a saúde débil e a resistência incurável, a vontade de viver intenso e muito. Amor. Tua força espraiada sobre dez cabeças de um ventre, propagando-se em mais outras tantas ao longo do tempo. Família. Perfumes e vestidos cor-de-rosa que se penduram. Tempo. Escasso, prematuro, de vida e de morte. Nunca suficiente para tanto sorriso.

Marina a capuccina

Marina, a cappuccina. Um enredo com o dedo de leve e um toque de canela. Fonte de leite vaporoso nas faces quentes. Marina cremosa, de condensar nos dentes. Um emplastro e um vício, princípio ativo compulsório. Marina de corpo e artifício. Cheiro gostoso de Marina-café e o café-tão precipício. Noites sem sono e canseira. Marina de seda e silício, na língua espuma: onda lenta. Mulher de ofício. Acendida como lamparina e farol. Presa numa máquina a Marina. Consumida de pouco em pouco, no mais ou menos açucarado da vida. Que é Marina? Marina mistura, Marina pequena, Marina instantânea. Um passo em falso e se vai Marina, derruba. Espalhada no cadafalso, langente, imprecisa, Marina seca. No vazio, cafeína.

Duplo

 

Eleonora foi mulher e me deu um beijo. Ela, atrapalhada, risonha e santa sem toque de dedos. Dois edifícios rachantes a experimentar o desmanche. Fomos neblina. Ela com pouca fumaça, mas fogo ardendo: eu com receio. Experimentando-nos. Uma palavra imensa. E nós aqui, na posição de quem espera, ou mesmo de quem vê o mundo passar agitado, suficientes. Eleonora tocou meus olhos com duas varas de cristal. Sem meus olhos não seria de Eleonora. Sem os olhos ela não seria. Eleonora tem a vista migrante de quem recomeça todo dia. Me abre os olhos. Me fecha os olhos. Me arrepia. Ainda que fosse um sábado e no carteado sem sorte só faltasse a dama. Uma espécie de vinho. Uma espécie de transe que não se completa. Eleonora completa, eu-mesquinho. Voto pela vinda de Eleonora. Voto por sua partida. Que ela chegue e se espalhe límpida. Espero por ela. Ainda.

 

Antônio tem um pó para cada passo, um passo para cada vez.

 

Antônio foi homem e me deu um beijo. Ele, acanhado, insípido, fuinha. Dois palcos a acumular poeira cinza. Fomos fachada. Ele com pouca pintura, um ar deprimente: eu com fadiga. Desencontrando-nos. Uma lacuna imensa. E nós ali, na posição de quem evita, ou mesmo de quem não desconfia do tempo escasso, iminentes. Antônio esperou um milagre. Sem seus olhos não se faria Antônio. Sem olhos ele não faria. Antônio tem o cegar opaco de quem só-se angustia. Me não deita os olhos. Se não abre os olhos. Me assedia. Ainda que fosse um sábado e na bebedeira sem sorte não restasse um outro. Uma espécie de jaula. Uma espécie de apatia que não se dissipa. Antônio repleto, eu-mesquinho. Prezo pela vida de Antônio. Prezo pelo Antônio desperto. Que ele encontre e se situe plácido. Um dia.

Vontade e potência

Um dia em peripécia, inepta inércia e pensamentos incrustados, todos eles dilatados de sangue em mim. Imperfeitos, polidos, agudos. Um pé de luz maciço a perfurar. Sentidos em deslize e pequeno avilte a confabular. Estreitos, cansados, dos olhos miúdos, reversos. Com a pretensão de ser um dia. Perigo de potencial. Potência infinita sem arranque. Um credo em pensamento. Uma nuvem. E eu mesma nuvem de mim?

De um filósofo

Rasguei a cidade de pé no fronte. Os dedos úmidos ricocheteando no vidro, escuro, apertado, metrô. Um dia imberbe apesar de gasto, peso nas costas contrariado, e um frio rasgante e máximo pelos lugares menos. Dia de conhaque. Dia de ócio e pudor, dia sem noite. Pensar nele talvez, se pensasse um pouco menos – do que já penso. Penso de propósito. Larguei mão do corpo sincero. Tenho-me atribuído porque não posso, construo. Uma paixão monológica, escondida, que não se assume. Amor de armário. Amor de só corpo, corpo só, de barba e disco nu. Esverdescentes os dedos. Um torpor a que não me atrevo, mas que o atiça e com-contra o qual já me acostumo. Experiência de médio oriente. Preciso todos os dias. E que dizer desse fato inédito: sentir saudade? sentir recalque, sentir sozinhez.?

Ms

Preencho. Verbo onipresente no recorte de vida que se me apresenta. Talvez fosse mais claro que tudo um vidro lúcido, trans, cheio de bolotas coloridas em chocolate. Peripécia. O p é talvez a consoante que pretende o pensar, psíquica: preencher é o proto-pensamento. Entretanto um ato. Preencher com um incidente súbito. Há tempos que não digo: entendo. Preencho todas essas lacunas de pensamento com filosofia recortada e literatura nas coxas para espantar o vício. Há dias não bebo. O ócio do ofício tornou-se sólido e agora preencho orçamentos e lembretes todas as manhãs. Meu corpo e meu veto são de uma finitude que não compensa. Um langor sórdido e cítrico na menta do chocolate. Dias de um marrom sem energia e chuva cinza e mais da certeza de que preciso, intimamente, preencher.

ViaViagem

Vertem meus anseios em viços, estou indo. O vento há de bater no todo do rosto que se sabe livre. Como precisei, corpo, do repouso que terei agora, no meio dos rostos que não vejo, no meio das músicas que não ouço! Apenas o corpo todo que balança descansando solto. Não há agora quem me peça que fique – de fato, já estou lá. Há um passado pegado, miúdo, agarrado na sola dos pés, que não passará. Este também fica. Da janela do ônibus, à espreita, todas as árvores e estrelas de beira de estrada, a namorar, a beijar, minha boca impressa no rosto de feliz estampa. A prisão do amor já me livrou, o coração é um veleiro. Tomando todas as velocidades, no passo do desconhecido, quero ter dias de não saber que sou daqui. Perdoe-me por não dar chance ao tempo de voltar atrás. Você sabe, quisesse, faria o passado revigorar, olharia nos teus olhos oferecendo. Mas não é isso. Não há. E o oco sabe primoroso à minha caminhada. Ser oco e leve como um pássaro. Vou arquear os braços sob a chuva, ganhar altura. Entusiasta. Descobri uma forma diferente de estar perto do deus, não posso contar. Cada um entende a forma que é sua. Disparate é o uísque libertino me possuindo. Apelo. Toma nota das dores que porventura surjam, escreve. Eu não posso escrever hoje porque não estou triste. Felicidade não dá tempo para sentar e tomar nota, vive.

Marrom

Teus olhos se colorem de marrom de quando em quando. Às vezes precipito a imaginar se de chocolate ou árvore antiga. Tenho algum receio em admitir que vingo nos teus olhos. É constrangedor assumir que neles escapo. Teus olhos têm um quê de fuga. Evado do meu pensar porque sei que falar de olhos é clichê, já aprendi isso, conquanto teus olhos sejam qualquer coisa de literária, precisante de ser escrita. Quando penso, escrevo, é inevitável. Talvez teus olhos sejam mote de todo o infindável grupo de pensamentos que terei e não se literariezaram ainda. Não sei nem por que escrevo sobre esses olhos que não acontecem, descasando do tempo contado e existindo num contínuo perverso... Talvez seja um exercício. Preciso exercitar a palavra para que, se um dia, caso um formoso dia, possam acontecer teus olhos, eu os possa tornar literários na minha palavra. Nunca soube se teus olhos piscam. Nunca entendi se eles abriam ou fechavam, estilizando a pupila numa semiplaca de pare. Sei que eles impedem o tráfego. Sei que neles ninguém estaciona se teu sinal não consente. Não há quem encare a salvo os teus olhos. É um acidente mórbido. É pedir para morrer, morrer de amor e de medo, morrer por dentro com a tua dor e o teu mistério, morrer com a simplicidade e a sutileza com que eles matam o alheio. Teus olhos são para caiar e para reviver. Não sei nem por que me ocupo desses olhos que de mim não têm pena. Talvez seja minha forma de dizer amor a quem acha que possui os olhos, o owner dos olhos que não são de ninguém. Eu disse que não acreditava mais em amor, não disse? Meus olhos mentiram. Cresceram meus olhos. Só sucumbiram aos teus em que se nunca termina. Se encerra apenas de pardo a cor.  

Primeiro conto

Uma mulher se espreguiçando dentro da cabeça. As pernas curvas do corpo tão curvo encurvando as paredes cerebrais na busca da explosão do lócus. Precisei olhar para o centro de meu mundo falocêntrico para entender o desmaio, o adormecimento ou o morto. Os lençóis limpos ainda, a cueca seca no pé ereto da cama... a mulher se abrindo toda no meu pensamento. O latejar da cabeça. Respira cachorrinho, contrações de 1 minuto. A desfragmentação dos neurônios pela força de dentro. Big-bang da mulher, dentro do corpo imóvel, anestesiado.

Quisera que a mulher não pensasse nunca por mim.

Abri os olhos sobre a cama, deparei com a pilha de camisas entrenroladas sob a encourecida cadeira de escritório, calçada pela pilha de mulheres em papel. Seios, seios, grandes, pequenos, brancos, bunda, bunda, seios... serventia? Lembro-me de tocar os seios, de gostar dos seios, de adorar ainda os seios, de colocar os seios na boca... mas nunca foram para mim nascentes tenras e ternas de amamentar criança.

Nunca pari nada que fosse quente.

Disseram que o teatro dava conta de ser outros, de viver o outro intensamente... tudo mentira, tudo. Perdi já o foco dos seios... preciso nascer de novo pela barriga. Por que diabos não controlo esse in-fluxo de consciência, que deriva não sei de onde, que nem devia ser minha. Mulher. Braços de pêlos, as unhas mal-feitas do pé, as revistas... sou homem ainda. Sou homem ainda?

Como vieram então esses pensamentos? de gerar de cuidar de... Mulher. Palavra, ainda. Nascida. Meu pai dizia que literatura não era para homem. Agora esse subjetivo todo que me sufoca, faz parar, mãe, faz parar... Chuva. Mulher tem orgasmo de natureza, de devolver ao solo fecundo o que faz nascer. Mulher chove, de verdade. Nunca chovi, sempre cuspi a esmo um magma que já surgia neve, sem nascimento. Nunca precipitei. Não pode ser que tão fácil se nasça – gozei tanto para não nascer.

Todos esses anos, acredita?, talvez uns trinta... todos eles de puro ejaculo-são, em todos aqueles buraco-peito-bundas que se mexiam ao meu redor, nunca teve vida. O que é o segredo da vida do sexo? Qual é a vingança do gênero morto?

Pisco.

Sim, estou pensando nisso – que bom que é morto meu pai. Se meu pai visse a mulher falando em mim, pensando em mulher de mim, para mim, assim como desse jeito que eu não sei onde ela termina porque não começo mais... meu pai, de seu universo limitado de homem e pai, com a lógica que imprimiu nesses anos todos em cada ruga do meu falocentro de futuro pai, pensando ser o dominador em uma sociedade de mulheres todas, de todos os tipos, disponíveis, insensatas, querendo se afirmar para um contingente enorme de ininteligidos homens que não as alcançariam mais, meu pai. Se ele visse essa mulher filosofando, bulinando minha certeza de homem sociofeminopata, assassino de todas as certezas de todas as mulheres que já conheci, e provei, e destratei, e iludi, espreguiçando braços brancos com a força de um potro dentro de mim, para dizer que está aqui, que nunca pensei sobre o que pensava e em como era desonesto fazer com que alguém precisasse provar algo para mim: meu filho, você virou travesti?

Não, mãe, guarda o pai, tranqüiliza o pai, estou sonolento, mãe, leva os chinelos do pai que ele precisa, mãe, a senhora tá precisando dormir, sua pele de mancha, queimada de sol, não liga pro pai, mãe, é só uma mulher da rua, ele bebeu, fala pra ele que tá tudo bem... ele tá achando que sou gay. Não explica que ele não vai entender, mãe. Se disser que eu sou eu mesmo uma vanguarda de mim, que vi todos os erros de todos os homens em mim, a crueldade de todos os homens e a fraqueza do não saber amor dos homens em mim, ele nunca vai saber que é a mulher. Não quero saber de homem, mãe. Depois de entender tanto o homem, nesse momento pouco que pude, não ia querer nunca, mãe. Queria que a senhora fosse eterna, mas já está acabando. O que existe agora não é a senhora, mãe, é mulher. Talvez ainda dê tempo. Talvez a senhora só precise de um banho, de um vestido, de um livro, de uma equipe treinada para vocês conquistarem o mundo, mãe. Chega de controle remoto.

Será que levanto ainda? Será que perdi o fio condutor da minha existência – posso ter outro? O que me faz achar que posso ficar no bar até de manhã? Estou roto. Nunca fiz simbiose com o vento, nunca amei. Homem não ama porque amar é uma sutileza imprópria. Se amor de mulher a gente pudesse amar também, o homem precisaria pensar e sofreria para ser feliz. Ser mulher deve ser andar em serra cortada. A mulher não responde, só fala quando quer, diabos de mulher que não corresponde, que não eloqua como aquilo que meu pai dizia que mulher eloquava, que nunca terminava, que era um monte de baboseira sem sentido, que era insuportável ver mulher abrir a boca sem ocupá-la em si. Para que mulher lia jornal? Tanta coisa interessante em si, precisante em si, falando secretamente nos ouvidos do si, e um horror todo a fazer tricô, a ter amigas que cuidam só dos filhos, a ficar cansada de si no espelho. Ninguém deveria ser obrigado a ler jornal para provar nada. Homem lê o jornal para flatular o jornal junto com o pão e o café. Para dizer que tem assunto na roda de amigos quando acaba a mulher. Mulher não deveria nunca querer ser homem. Mulher e homem são dois de um, coexistem, inexistem sem... para que padronizar, uniformizar, mentir o maravilhoso da diferença?

A mulher rodopiou de salto no alto do cocuruto. Soprou em lentos alguns ditos de sabedoria milenar, gerou um poema. A mulher que não é feminista nem machista, porque ser -ista é ser isto forçado, mal feminilizado, e somos este, aquele, os outros, todos. Tem uma língua que entende plurais para mulheres e para homens. Um sexismo bobo. Provavelmente não dicionarizaram ainda o coletivo de borboletas. Homens não podem tatuar as borboletas, nem fazê-las bater asas com o balançar da escápula e escapulir-voar. Homens não aprendem a dar de ombros. Homens esquecem porque não têm força para viver com a lembrança ou porque não haja o que lembrar, já que nada foi pensado ou sentido a ponto de marcar. 

Será que a mulher, homenizando, acha que não sentirá dor?

Será que a mulher homenizada será eternamente um homenino e desprezará o encantamento de imaginar as perpetuações?

Será que esta mulher de reta ideologia é a última mulher da mulher nova?

Será que todas as novas mulheres vão deixar de existir mulheres para homenizar?

Os seres quentes vão parar de nascer?

A dor de nascer vai parar de existir?

Existir vai parar de nascer e significar?

Quem vai insistir?

A mulher escamoteia meus tijolos. Leva a mãe, perde o pai, família. A família é o verdadeiro oprimido do sexo. Não perceber que a melhor forma de se livrar da opressão é não admitir o outro como opressor, e cooptar conjuntamente sentidos novos, até que os novos sentidos sobreponham perenemente os velhos sabidos. A melhor maneira de se afirmar é se convencer e se acreditar.

Levanta da cadeira, mãe. Diz para o meu pai que ele pode te ajudar a lavar louça porque você vai arrumar um emprego. Por favor, mãe, não largue o vestido. Seu chefe vai te achar bonita, mas você é mais do que isso. Estou perdendo os pudores, mãe. Você não é mais senhora porque o lar agora é uma comunidade e somos todos homenlheres. Você pode colorir o céu também, mãe. Aproveita a morte do pai. Todas as mulheres mataram o pai. Todas as mulheres que tentaram ser o pai vão ressuscitá-lo ainda se deixarem. Mostra o belo do parto, mãe. Forra a mesa do escritório com um tricô bem tecido igual ao da minha primeira roupa, aconchegando aqueles projetos todos de novidade e progresso com teu colo e habilidade de mulher. Explica o sentido para elas, mãe. Você também vê a mulher na minha cabeça, mãe?

 

O homem e a mulher estão sós.

Inamor

Não há culpado. Só é forçoso que eu esteja em mim, e que seja o mim tão claro que eu não possa duvidar de mim. Preciso estar dentro, por dentro. Não só me move o que comove, mas também o que consome. É preciso estar inteiro para se dar.

Não sou culpada. Não posso dizer que eu seja conforme os valores em que acredito. Nem sempre aplico a mim o que espero do outro. Sou movediça. Porém, toda imperfeição faz parte de mim e o mim é o todo que me espera... É preciso. Rodo nas mãos porque sou argila, sou barro de mulher que há de se criar ainda.

Não é culpado. A parte sua que em mim resvala é aderente. Talvez não se destaque nunca. Talvez remanesça como mancha, princípio de câncer. Talvez um dia eu tome banho e nem lembre que algo de você esteve lá. Mas sua parte, a parte que só você pode dar, é algo de certo. É preciso. O mundo se move por força desses brotares sem explicação e por eles floresce. Jardins. No mundo amargo, orquídeas são os suspiros das janelas, semente de paisagem. Não nos esqueçamos nunca que orquídeas, violetas, girassóis, todas as flores e frutos bebem da mesma fonte natural. É um amor extremo que o mundo obscurece sob o concreto.

É preciso que se procurem culpados. Racionalizamos todo o tempo com a desculpa do pensamento. Por conta, é preciso que haja motivos. O culpado é o forjador do motivo. O motivo é o álibi de não se poder explicar. O álibi do que achamos ser a maior incapacidade do humano pensante.

Não é preciso que haja culpados. Há um equilíbrio do universo que prescinde de nós, somos partes. Quem sabe quantas partes se combinam e descombinam a todo momento, tentando, inconscientemente, aproximar-se do infinito através do equilíbrio. Somos partes e portas. É preciso que estejamos abertos. É preciso que a completude seja natural. Habituar-se ao equilíbrio. Ser entrada e saída de sentidos.

Eu preciso.

Fábula

Embriaguez do cheiro dos rios, apetecer de pouco pudor. Meu nó embrutecido se desfaz ao teu convite. Experimento estranhezas de degrau insustentável que só podem me levar ao anoitecer. É a chama contida que sufoca mais, a permanência do inóspito que complica... Vou te esconder em algum lugar dentro de mim, e que nele esteja, que sagrado seja teu isolamento de mim em mim. Disfarçar de mim a ponto de meu coração não poder ver. Entretecer teus dedos no infinito do meu pensamento distante, desembocar teus olhos no serenar do meu esquecer... Ser sincero é qualquer exercício que dói. Sinceridade é necessidade, o eco confirma. Divagar de mim para mim sobre você para que desapareça. Esse amor não há em mim. A mímesis de conquista é o que late em mim. Esse é o Amor em mim. O limite entre o absurdo e o humano é convencional como os signos matemáticos e o bom perfume das rosas. Pensar em você assim é absurdo. Existir tendo você em mim sem que esteja em mim é absurdo. Ser humana quando a dor desfez todo o absurdo de amor que havia em mim é humano. Mentir como minto é absurdo e humano. Disse que eram assim. Disse que se um dia notasses que morro em mim, que minhas mentiras são resfôlegos de prazer e sobrevivência, meus respingos de humanidade, seria assim. Disse porque digo gritando sempre, por me aproveitar do insólito de as pessoas não saberem ouvir. Digo por não querer mesmo que elas ouçam. Sabe ao peito que me ignorem, mesmo sabendo que preciso tanto, tanto, de todos, de muito.

Rede de fiar

Sentimentos traspassados, a certeza flui como ungüento consistente, preenchendo e acomodando o oco de dentro. Há a certeza de que há intenção, espera-se o tempo propício, na cordialidade daqueles que um dia amaram. A quem foi feito para o Amor, não participa que sem ele seja... vira falseamento de amor, tentativa frustrada como toda vontade sem força.

Foi preciso tentar. O homem não se contenta – e nem deve – com a especulação do que poderia ter sido: tentando entendemos que já foi. As gravuras litográficas da memória ficam, mas a dor não mais há e isso é bom. Dificuldade insensata do humano em perceber o bom no final dos processos. A vida em processo, o ciclo. Os novos anéis que encaixam em dedos crescidos e que serão posteriormente ensaboados, devidamente limpos e retirados, guardados. Uma caixa de buraco negro nosso coração. Todo o infinito de sentimentos que findaram ou permanecem. Um emaranhado de recordações diferentes das recordações processadas, memoriadas, ficcionalizadas para melhor contar depois, museu que se conserva. Estou plena do que meu coração acha certo e fico feliz. Contarei a ti no momento certo, aguarda. E tu haverás de ser feliz também.

Influências

Janela adentro curiosamente expande o dia, feitio de pomba, matiz de nêspera, pedaço de vida, meandro de espelho. Espeto a cortina no medo. Deixo entrar com força e súbito, molhando as paredes do vão, afastando entre si as paredes, crescendo. Estranhamente afoito, pertinente e bem-vindo, um dia sadio, prestes a deixar que se sinta, permitindo que não se entenda. Recomenda a mim o dia o amarelo da vida. O reluzente do dia. A vida de amanhecer. Mãos às janelas, abro à pomba o peito o máximo que consigo. Deixo que a pomba pouse, deixo que o dia se me integre. Fusão do novo dia com o dia pronto, enredo viçoso... Planto a nêspera. Broto a nêspera. Mordo a nêspera no seio. Deixo que o dia me saboreie na nêspera e entendo. Compreensão simples de ser simples que tanto tempo levei para alcançar. Inteiriça a vida.

Só não consigo ainda desanuviar o espelho. Embotado o espelho. Desiludida a criança. A vida entra, mas não toca a criança. A criança não toca a nêspera, a criança não interage com a pomba, a criança que é toda vida não se funde com a vida. A cortina da criança escorrega pelo dia dispersando os raios tímidos, enchendo alérgica o ar de ácaros, com claustrofobia das paredes que cercam e intimidam e encolhem. A criança brinca com o espelho. A criança sopra o ar quente de seus pulmões protegidos para desenhar no espelho uma boca mais bonita, um brinco na orelha que reflete. A criança vê no espelho que é o espelho e não sabe mais onde começa e termina. A criança vive no espelho.

 

Surpreendentemente a vida o dia a nêspera a pomba o espelho a criança, um todo incoerente.

Sem título

Enternecidos olhos, empobrecidos valores, intumescidos calores... Evasão empírica do todo petrificado de outrora. Vida vadia, tida vazia, repercussão de história. Ninguém entende, nem explico. Não há o que ser explicado. Não há viver que se saiba desperdiçado. Sabemos, sim, a hora de parar de estar parado. Petrifico. É a adrenalina do errado, da dupla existência, da mentira pelo prazer de mentir. Relaxo. Sou safa. Sou beneficiada pelas energias anticósmicas que me defendem dos meus atos falhos. Não quero você. Não quero aquele. Não quero nenhum de vocês todos. Estou com vocês todos porque preciso do pulsar nervoso, do correr das sombras, da navalha da fuga da falação. Há pedaços de mim com cada um de vocês. Meu corpo fragmentário se propaga entre vocês. Minhas palavras ludibriantes trafegam sobre vocês. Minha mentira é real para todos vocês. Minha verdade é que há de ser mentira quando alcançá-la. Penso ainda no que ela significa e nada me tem dito. Recupero vontades, vontades que se mudam. Enjôo de tudo. Enjôo sobretudo de todos vocês. Desimporto vocês. Uso vocês como sei que me usaram um dia. É a compensação universal. Sou a máquina que move o equilíbrio universal. Sou o pedaço de pedra e carne que destrói o equilíbrio universal. Sou a armadilha de mim e para mim, mesma esfera de poder e ilusão. Engasgo. Sou a expectativa, o futuro que há de chegar, mas não deixa de ser futuro. Não sou ainda. Cuspo. O indigesto concluir da falta sai de mim. É o que vejo, sei que ele chega. Vou perceber em breve, brevemente, que falhei. A falha há de descompensar minhas tentativas de mérito. Enlevar-me-ei com as palmas. Relevarei as palmas. Precisarei das palmas que nunca chegam. Desistirei das palmas. Ignorarei a platéia. Vou me isolar de novo, sei que vou, é o único momento que sempre volta. A solidão. Sou só. Não estou só. Quando o corpo perceber o lapso, hei de ficar novamente só. Quando a mente perceber o lapso, hei de entender que sou sempre só.

Por enquanto fico com a maquiagem dos espelhos.

Mote

Dentro do copo há imprecações diversas. Há em mim um bando de águias que bicam pensando lamber as asas feridas. Todo o resto disperso é sombra, não enxergo, não entendo. Julgamentos todo o tempo. Minha lírica não tem nada de imaginativa. Saudosista, não alcanço os modernos, não sintetizo, não rumino minha poesia. Descobri o verso quando não podia descobrir o verso. Descobri a prosa quando compreendi que não caberia no verso. A alma imensa. A vontade tamanha como as vontades que exalam dos sonhadores, a vontade compartilhada, a sinceridade ingênua. Sendo homem numa mulher, sou menino. Sendo mulher como mulher, sou menina. Tantos gêneros, quantos... que se diz de todos eles? Entendo tudo, tudo... isso me assusta. Isso deixa meu olhar triste, uma nuvem inglória que permeia tudo ao redor. Não se afaste agora. Você que tem olhos nas palavras, você que oculta palavras nos olhos, meu vocativo instantâneo que não quer ser outro. A incerteza é colírio, saber que pode ser mais do que este menos, diferente de tudo tão caótico como é, num outro caos mais ordenado e mais verdadeiro. Fugas nunca no campo semântico, apenas no verbo. Máscaras à coxia, cortinas diante do corpo, encerrando o espetáculo do corpo, encerrando as pálpebras cerradas por um festim de realidade. Tateio lembranças. Especulo raízes para meus devaneios, o homem sempre em busca de respostas, a mulher sempre criando perguntas. Insisto em um passado porque sei que não há passado, todos os tempos atrasados são mortos, o que sou é agora. Estranho o verbo estar. Estranhamento de não ser. Estranhamento de permanecer sem haver referencial. Suspensão do sentido para ver se toco. Sensações que não substituem os sentidos criados, imaginação fértil... tudo mais interessante se abstrato. O sentido que não volta. A palavra aberta sem sentido. A palavra de todos os sentidos do mundo.

Nova

Esperei para dizer que não fosse, mas não houve palavra. Nada que denotasse dentro de mim o que não existia. Todas as nossas abstrações são derivadas dos contatos com a realidade. Todas as nossas saudades são percalços das fantasias. Sua ausência está até no mundo que criei. Impressiono-me. Ganhei novos envoltórios nos últimos dias, tive no álcool que bebia o prazer do solitário e o abrir de todas as novas portas. Tantas janelas que davam de frente para a noite, tantos corpos, tantos copos. Indago se era um cemitério ou um convite à orgia. Ignoro motivos outros que não os que você deu. Desconfio que os fantasmas criados se foram, precisaram do ar que respirei, protelaram a ausência do risco. Proseio com todos os desconhecidos famintos, os perdidos, os delinqüentes, os corretos deprimentes, aqueles que me alimentem o verso que dormia... abandonado era o verso no nosso universo de monotonia. Sem racionalizar, só consigo dizer com segurança que não sinto, e não é investir no falido o risco de que gosto. Sangue fervente é o que se bebe para alongar a vida post mortem. Morri para estar viva. O coração morto permite mais espaço dentro do corpo. O chão cheio de recortes é opaco, melhor o teto branco, o teto preto, o céu que se divide. A ignorância do limite. Percebe que se perde? Sua imagem se perde, seu gosto se perde, seu toque se perde, seu caráter falho se perde, sua ânsia se perde, seu esforço se perde, sua mágoa ficará para sempre. Por mais que venham outras paixões, como sempre vêm, por mais que tudo seja sempre mais do que menos, nunca o suficiente. Surpreendo-me com a mudança. Nunca achei que eu mudasse, nunca. Sempre presa aos meus confortos de ser sempre a mesma, de ser previsível a mim mesma, de querer sempre muito pouco que me fizesse sorrir. A abundância me distorce, estou deslumbrada. Os futuros milionários nunca se deslubram. Os visionários e os gênios nunca se deslubram. Estou fadada ao ápice que é queda. Estou a caminho, posso sentir o odor fresco e acre daquilo que me é reservado para ver ainda. Paro contra a pedra. Quebro a pedra. Arranco do chão a pedra que ancora meus medos. Faço que voem. Levo na palma uma bolha de sabão e de esforço. O ventre rasgado para que o ar entre. O corpo todo respira. É um alívio essa tensão diária de poder morrer, pior a segurança do meu quarto azul de fim de semana. Uma companhia funesta de matar a criatividade. Um quarto de paredes frias como os braços frios que me enforcavam no sexo sem sentido. Deixo que me beijem. Não sinto nada quando me beijam, mas o beijo é um reboco fácil. Quando se está partido é preciso. As bocas são os canais mais lívidos, mais levianos das descobertas puras. Quero construir um duto. Quero adotar um douto que me leve ao irregular, anseio pelos novos nomes de todas as coisas do mundo. Fale em latim comigo. Sacrum officio, poesia. Suspire em francês no meu ouvido. Morda. Assopre. Confunda. Ouça meu grito.

Ressuscitando o blog

Você:
 
resolvi, só Deus sabe por que, ressuscitar este blog. Vou postar vários textos de uma vez e você que se vire com eles.
 
30 January

As (internas) invasões bárbaras

Nunca diga que não pôde,
que não teve,
que não foi.
Mal se entende o que passei,
quanto mais o que não sei
por não não ter visto!
 
Pudesse, teria podido em tempo outro.
Agora o tempo é esse.
 
Agora é hora de dizer "eu posso".
 
É esse o primeiro passo para dizer: Eu sou.
27 January

Poema antigo

Tenho nome de coisas que não são todo dia ditas
Coisas que todo mundo tem medo de dizer
Tenho uma caneta, um papel, uma idéia
Tenho tinta de caneta e uma criação
Escuto o som que o silencio triste me dá
Alegria de viver e escutar
O mundo infeliz
Razão da minha felicidade
Pai do meu amor, do meu sonho e da ilusão
Obra impiedosa de caridade  
                       [da alma...
Tenho um desejo louco e uma saudade imensa
Uma inspiração nascente e uma controvérsia imensa
Uma vida num caixão, imensa
Uma saudade louca e uma vontade intensa
Forte para compensar a imensidão dos meus vividos
Vejo um filme de uma memória insegura
Uma cara de espinhas, uma mente madura
Uma idade resplandecente
Mãe das minhas rugas prematuras, dos pelos na perna
De paixões imediatas, mudando a paisagem interna
                                        [na alma...
Tenho um tempo, amigo meu
E um final, que ainda dura...”
(Tenho tanta coisa, e o que tenho afinal?)

Tatiany Pessoa                     
17/10/99
Obrigada, Juliana!
23 January

Monólogo e êxtase

Pretenso
Intenso
Meu dia tenso espalhado pelos músculos.
A face contorcida conserva
O traço escorregado do denso
Tráfego de sensações e tédios.
 
Propenso
Imenso
Meu corpo extenso confortado pelos livros.
O rosto entorpecido preserva
O ponto esburacado no penso
Que trafego em fendas e méritos.
 
Alheia ao menos, em tudo torpe,
Encéfalo puído e dolorido,
Estendo a mão ao púlpito adormecido
Onde nervos e pêlos se completam:
 
Prazer efêmero, langor viscoso,
Solidão pungente e comovida,
Tracejo graças de teor adulto,
Em carícias meras de fina iguaria.
 
Sabores, saboreio tédio, ócio e anseio.
Saboreio a mim e tudo que me é direito.
Saboreio o vento e a história finda,
O corpo, o seio e o sonhar ainda...
 
É sorte e vida, escolha e morte... Ser e estar, devaneio e corte.
 
Momentos meus de existir menina.
06 January

Surto psicótico-literário e leitura forçada

Vou me lembrar de te escrever quando José partir.

Vou pensar em ti todos os dias para refrescar a lembrança. Se chover, digo que chove a água do chuveiro frio de Praia Seca e, se fizer sol, que amanhece nos picos altos das Serras do Sul. Vou pedir cigarros pra deixar no pé da tua cama e junto uma poeira pra fazer tua cinza sem enegrecer meus pulmões. Vou passar o chá na leiteira e deixar o bule a fazer teias, como quem nada entende de cozinha e não respeita as panelas. Deixo a tua fatia de pizza devidamente descoberta, para que teu queijo fique precisamente esparramado e seco nas bordas da travessa, disforme permanentemente como todas as besteiras que nunca podem ser desfeitas.

Em memória da tua inconseqüência promíscua, da tua desmesura imprecavida.

Vou aproveitar todos os caroços de azeitona na escultura que nem fiz e chamar de arte os rabiscos na tábua de carnes. Vão me expor como tens feito e serei quadro intermitente. Vou precisar os ponteiros do relógio para exatos 5 minutos antes, para acordar atrasado com a tua vontade usual. Vou pintar as paredes do quarto sempre que parecer que o azul me dá sono ou que o amarelo alimenta minha esquizofrenia discreta. Vou pintar as unhas do pé da cor das unhas da mão e ficar com raiva, libertar meus instintos. Vou olhar no espelho vendo uma boca que gostaria de beijar. E o que eu quiser escrever, vou escrever nu e com as nádegas frias da pedra da varanda. Arrepiado e exibido, ultrajando os vizinhos desatentos. Vou pontuar a carta com vírgulas e ponto-e-vírgulas e ponto-ponto-vírgulas para mostrar que de nada serve essa tamanha correção. O que aprendi contigo. Escrever meus decassílabos marcando os hiatos, deixar minhas chaves-de-ouro piegas como as músicas do Wando. Depois de tudo isso, de tanto querer te ver nas palavras que usas, de tanto ressuscitar tuas lembranças para que te reconheças na minha insistência memorial, vou assinar com esse nome que é meu e de todos – eu e todos os outros que te viram dormir.

Com carinho,

José.

08 December

Quem sou eu?

Também não arrisco contar nada. Você conversa comigo meia hora e descobre que menti tudo. Aí me conta quem sou eu, eu acredito, me desconstruo, te agradeço, te ofereço uma cerveja e um pedaço do coração. Sou personagens de esquete, entrelinha pega no ato falho, rubor, desconserto e aplauso. Sou um tu-tum insistente, do coração de fiapos brancos camuflado em creme. Escultura de argila, me derreto e quebro. Penso, repenso e recomeço. Sempre.
 

Tatiany

Occupation
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Interests
Decifra-me ou devoro-te. Se não for sensível ao sutil perfume de minhas pétalas, tenderás a ferir-te às cegas em meus espinhos.